07/1/2008

O salão era circular e abissalmente enorme. Parecia ter sido construído para dar aos visitantes a sensação que são, digamos, minúsculos. Não que houvesse alguém minimamente interessado em visitar o mago. Uma mesa circular gigante com cadeiras três vezes maores do que se consideraria razoável contribuía para a sensação de que o salão de entrava da torre era, na realidade, a sala de reuniões da convenção anual dos gigantes negros. A jocosidade do apelido vem da recusa dos gigantes negros a se reunirem em quantidade sem algumas dezenas de dragões voando sobre suas cabeças.
No lado oposto à porta estava a apeçaria que, sozinha, garantia que o mago havia perdido sua sanidade há muito tempo. As runas ali tinham o propósito de demonstrar que, basicamente, magos podem ser magos mesmo sem serem magos. Ou que, uma vez não mago, é possível provar que, mesmo que não seja possível, é possível não ser não mago. Ou, mesmo sendo necessário ser não mago, é possível que não seja necessário não ser não mago. Tudo isso deixava ele muito confuso. Como um mago poderia perder seu tempo discutindo o sexo dos anjos? O sexo abstrato, como dizia o dito cujo.
Uma vez, o mago havia lhe pergntado se as bruxas da cidade não haviam lhe ensinado matemática. Magos loucos às vezes inventam palavras, o que se diz é que a maioria é ao menos honesta em relação a palavras inventadas. Parece óbvio para qualquer um que a matéria dos números se chama numerologia, e que tem importância secundária em escolas de iniciação à bruxaria. Óbvio para qualquer um, exceto, claro, magos loucos.
Olhou a parte inferior da tapeçaria. Ele achava que o mago tinha dito que eram equações que podiam ser mapeadas para alguma coisa lógica. Isso, claro, não tinha nenhuma lógica.
– Fórmulas lógicas.
– O quê?, disse assustado.
– Podem ser mapeadas para fórmulas de uma certa lógica modal.
– Não sabia que você sabia ler mentes.
– Não sabia que você não sabia que falava sozinho.
– …
O mago sorriu. Estava à sua direita. Não, esquerda. Céus, era confuso estar ao lado dele. Sentiu certa sonolência.
O mago era alo e bem magro. Tentar determinar a cor da pele dele era em geral impossível, já que ela parecia depender da posição entre o mago e seu cetro de mármore. Mas geralmente flutuava entre o roxo e o cinza, sendo ocasionalmente alaranjada. Os cabelos eram definitivamente pretos, ao menos de noite. Uma capa verde e um medalhão dourado completavam o que seria uma aparência surreal típica, se não fossem os globos oculares assustadores que circulavam seu corpo e seu cetro. Na verdade, o mais estranho era como a pele desse mago geriátrico era lisa e uniforme. Faria inveja a qualquer bruxa que apela para poções cosméticas caras, com certeza.
– Você parece atrasado, menino, comentou o mago frivolamente, enquanto se entretia fazendo alguns dos olhos flutuantes chorarem bolhas de sabão e amendoins.
– Er… me atrasei.
– Evidentemente.
– Bom, aqui está, disse o garoto, se aproximando do mago e estendendo a mão aberta.
– Ah. Não serve mais. As jujubas estavam boas?
– O que?!
– O portal fechava em uma hora. Você voltou em três. Não é de se esperar que o portal tenha fechado?
– Mas eu trouxe a chave. Eu consegui!
– Ah, não fique assim. Espero ao menos que você tenha aproveitado as jujubas.
O garoto se sentiu desolado.
– Mas eu fiz um ritual de chamado. Olhe meus pulsos!, suplicou, mostrando os pulsos cheios de sangue.
– Espero que não esteja tentando me culpar pela sua própria estupidez, disse o mago, sorrindo.
– Mas foi você quem exigiu que um ritual de chamado fosse completado antes das tochasse apagarem.
– Invocação.
– Quê?
– Eu pedi uma invocação…
– Mas um chamado é uma invocação!
– Chamados não funcionam em objetos de disparo específico, como, er,
– …
– chaves mágicas.
– Objetos o quê?
– Ativados por disparo específico. Escuta, qual o problema daquelas bruxas, hein?
– …
– Achei que cursos de iniciação abordassem objetos mágicos. Ou melhor, aparentemente todos os abordam, excetuando o das tais bruxas.
– … e agora?, disse o garoto, olhando para o nada.
– Bom, te restam as jujubas. Você pode repetir o teste amanhã se quiser, mas espere algo mais difícil.
– …
– Quer ajuda com seus pulsos? Céus, essas bruxas são meio bárbaras, né?, Perguntou o mago, aparentemente entretido com amendoins giratórios.
– Você diz, curar?
– Unrum. Ou você quer machucar mais um pouco?, perguntou o mago com um sorriso bem aberto.
– Não sei curar ferimentos.
– Como não? Você concluiu uma iniciação mágica, certo?
– Sim…
– E as bruxas ensinaram a entalhar runas na pele, mas não a remove-las?
– Bom, sim… na verdade, não tem muito o que aprender sobre desenhar runas com uma adaga…
– Poxa…
– Desde que se pratique, é claro.
– Surreal.

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